Toda discussão sobre comprar carro no Brasil termina em emoção, e é aí que o dinheiro vaza. Em 2026 o mercado deu um sinal claro de para onde as pessoas estão correndo: a Fenauto contabilizou 7.492.976 usados e seminovos negociados de janeiro a maio, alta de 8,4% sobre o mesmo período de 2025. Não é nostalgia, é matemática de bolso. Vou colocar os dois lado a lado pelo critério que sobra quando a emoção sai de cena: quanto cada opção tira da sua conta ao longo do tempo.
O que cada um custa de verdade
Começo pela etiqueta, porque ela já abre um abismo. Em outubro de 2026, segundo estudos MegaDealer e Auto Avaliar citados pela InfoMoney (valores em R$ são estimativas de mercado, não cifras oficiais), o preço médio real de venda de um zero-km ficou em R$ 157.785, contra R$ 89.654 do usado médio. A fábrica sugeria, em média, R$ 169.580, e o desconto médio de cerca de 7% derrubou para o valor real. Mesmo assim, a distância continua brutal.
Quando você compara o mesmo modelo nas duas pontas, a análise da InfoMoney aponta que um seminovo sai de 20% a 30% mais barato que o zero equivalente. Traduzindo em produto: a reportagem do Campo Grande News mostra que com cerca de R$ 80 mil dá para levar um SUV médio seminovo de 2 a 3 anos com câmbio automático, multimídia, pacote de assistentes e teto solar. O zero equivalente, com a mesma ficha, pediria entre R$ 110 mil e R$ 140 mil (faixas estimadas). Você paga o conforto do desconhecido ou o conforto da garantia, e a diferença passa de R$ 30 mil.
A depreciação que come o zero
Aqui está o custo invisível que quase ninguém soma ao fazer a conta. Carro não é investimento, é ativo que derrete, e o zero derrete mais rápido logo no início. Com base na tabela Fipe (percentuais são estimativas de mercado e variam por marca e modelo), o zero perde de 15% a 20% só no primeiro ano de uso. É depreciação não-linear: os três primeiros anos concentram o pior.
O detalhamento ajuda a enxergar o ponto doce. No segundo ano, mais 10% a 15%. Do terceiro ao quinto ano, algo entre 7% e 10% ao ano. Depois disso, o usado em geral perde de 5% a 10% ao ano. Em números reais sobre o preço médio do zero (R$ 157.785), 15% a 20% no primeiro ano equivalem a algo entre R$ 23 mil e R$ 31 mil evaporados antes da primeira revisão grande. Quem compra um seminovo de 2 a 3 anos deixa esse prejuízo na conta do dono anterior e entra no carro já com a curva mais suave pela frente.
Juro de 27,7% muda o jogo
Se você vai financiar, a régua muda de novo, e contra o zero. Em janeiro de 2026 a taxa média anual para financiamento de veículos de pessoa física chegou a 27,7% ao ano, o maior patamar desde abril de 2025 (28,1%), segundo o Banco Central reportado pela AutoData. Houve queda de 1,8 ponto percentual em 12 meses, mas ainda é juro de quase 28% mordendo cada parcela.
O recado prático é simples: quanto maior o valor financiado, maior o estrago do juro. Financiar R$ 157 mil a 27,7% ao ano dói muito mais do que financiar R$ 89 mil na mesma taxa. E o terreno está escorregadio: a inadimplência no crédito para veículos ficou em 5,6% em janeiro de 2026, estável ante dezembro, mas o maior nível desde maio de 2023. Em ambiente de juro alto e calote subindo, alongar parcela para caber o zero no orçamento é a receita clássica de pagar dois carros e dirigir um. O seminovo entra aqui com vantagem dupla: ticket menor e, portanto, juro absoluto menor.
Onde o zero ainda ganha
Não vou ser injusto com o zero, porque ele tem trunfos reais e um deles é a garantia de fábrica. Em 2026 a Honda lidera com 6 anos sem limite de quilometragem. A Toyota oferece 5 anos sem limite de km, podendo chegar a 10 anos ou 200 mil km com as revisões em dia. Kia entrega 5 anos ou 100.000 km, e a Hyundai cobre 5 anos no geral mais 8 anos ou 160.000 km no conjunto elétrico. Para quem roda muito e odeia surpresa de oficina, isso é dinheiro economizado e paz de espírito.
Mas garantia tem letra miúda, e ela muda. Atenção a quem compara elétricos: para os modelos 2026 e 2027 a BYD encerrou a quilometragem ilimitada para uso particular, limitou multimídia e luzes externas a 36 meses ou 60 mil km e, embora mantenha 8 anos na bateria de tração, agora impõe teto de 200 mil km. Ou seja, nem todo zero entrega a cobertura que entregava ano passado. E há um fator que aproxima as etiquetas: o programa Carro Sustentável reduziu o IPI de modelos mais leves e de energia limpa e ajudou a impulsionar quase 25% os emplacamentos dos carros incluídos, segundo a Fenabrave. Nesses modelos elegíveis, o desconto fiscal encurta a distância para o seminovo.
Prós e contras lado a lado
- Zero-km: garantia de fábrica longa (Honda 6 anos, Toyota até 10 anos com revisões); zero histórico oculto; tecnologia e assistentes de série; IPI menor em modelos do programa Carro Sustentável.
- Seminovo: preço de 20% a 30% abaixo do zero equivalente; a pior depreciação (15% a 20% do 1º ano) já foi absorvida pelo dono anterior; ticket menor reduz o juro absoluto no financiamento; oferta enorme, com 7,49 mi negociados de jan a mai/2026.
- Zero-km: perde de 15% a 20% só no primeiro ano (R$ 23 mil a R$ 31 mil sobre o preço médio, estimativa); ticket alto que infla o juro de 27,7% a.a.; algumas garantias encolheram, caso da BYD 2026/2027.
- Seminovo: exige vistoria séria e checagem de histórico; pode ter desgaste e revisões atrasadas; garantia de fábrica reduzida ou perto do fim; juro de usado costuma ser igual ou maior que o do zero por unidade de risco.
O ponto doce, para a maioria que financia, é o seminovo de 2 a 3 anos: ele já entrega com a pior fatia da depreciação absorvida pelo dono anterior (os 15% a 20% do primeiro ano e boa parte dos 10% a 15% do segundo), custa de 20% a 30% menos e, por ter ticket menor, sangra menos no juro de 27,7% ao ano. Com cerca de R$ 80 mil você leva um SUV médio bem equipado de 2 a 3 anos; o zero equivalente pediria R$ 110 mil a R$ 140 mil. O zero ainda vale em dois casos concretos: se você compra à vista (ou paga juro próximo de zero) e vai rodar muito por muitos anos, diluindo a depreciação ao longo da vida útil; ou se o modelo desejado é elegível ao IPI reduzido do Carro Sustentável e tem garantia longa de fábrica (Honda 6 anos, Toyota até 10 anos), o que encurta a distância de preço e protege o bolso de oficina. Fora desses dois cenários, em 2026, o seminovo bem escolhido ganha a conta. Valores em R$ e percentuais são estimativas de mercado (InfoMoney via MegaDealer e Auto Avaliar, Banco Central via AutoData, Fenauto, Fenabrave, Fipe).
Perguntas frequentes
De 20% a 30% menos, segundo análise da InfoMoney com base nos estudos MegaDealer e Auto Avaliar. Na média de mercado de outubro de 2026, o zero ficou em R$ 157.785 de preço real de venda contra R$ 89.654 do usado médio. Valores em R$ são estimativas de mercado, não cifras oficiais.
Entre 15% e 20%, com base na tabela Fipe (percentual é estimativa de mercado e varia por marca e modelo). A depreciação é não-linear: os três primeiros anos concentram a maior perda, com mais 10% a 15% no segundo ano e 7% a 10% ao ano do terceiro ao quinto. Por isso o seminovo de 2 a 3 anos entra com a curva mais suave pela frente.
É a parte mais delicada. Em janeiro de 2026 o juro médio de financiamento de veículos para pessoa física chegou a 27,7% ao ano, o maior patamar desde abril de 2025, segundo o Banco Central reportado pela AutoData. Quanto maior o valor financiado, maior o estrago: financiar R$ 157 mil a essa taxa dói bem mais do que R$ 89 mil. Com a inadimplência em 5,6% (maior nível desde maio de 2023), alongar parcela para caber o zero é arriscado.
Em dois cenários concretos. Primeiro, se você compra à vista ou com juro próximo de zero e pretende rodar muito por vários anos, diluindo a depreciação ao longo da vida útil. Segundo, se o modelo é elegível ao IPI reduzido do programa Carro Sustentável (que impulsionou quase 25% os emplacamentos dos incluídos, segundo a Fenabrave) e tem garantia longa de fábrica, como Honda 6 anos ou Toyota até 10 anos com revisões. Esses fatores encurtam a distância de preço para o seminovo.
Ajuda, mas com ressalvas. Em 2026 a Honda oferece 6 anos sem limite de km e a Toyota 5 anos podendo chegar a 10 anos ou 200 mil km com revisões em dia, o que é dinheiro economizado em oficina. Por outro lado, garantias mudam: a BYD encerrou a quilometragem ilimitada para uso particular nos modelos 2026 e 2027 e limitou itens como multimídia. Avalie a cobertura do modelo específico, não a marca em abstrato.