O vendedor abre o folheto e aponta para o número grande. Ali está escrito 700 km. Você guarda esse valor na cabeça, fecha o financiamento e, três semanas depois, percebe que o painel marca 440 e despencando rápido quando o ar-condicionado entra. Não houve fraude. Houve dois números medidos de jeitos diferentes, e quase ninguém explica isso na concessionária.
A boa notícia é que o número confiável existe e é público. O Inmetro publica a Tabela PBE Veicular, que em 2026 reúne cerca de 794 modelos e versões de 39 marcas, atualizada em janeiro. É um valor já descontado, pensado para o trânsito brasileiro. O problema é que a montadora prefere divulgar o outro, o de laboratório europeu, que sempre parece melhor.
Por que os dois números nunca batem
Todo elétrico carrega pelo menos dois rótulos de autonomia. Um vem do ciclo de teste estrangeiro, feito em pista ou esteira, sem subida, sem calor de 38°C e sem você pisando fundo no semáforo. O outro é o certificado do Inmetro, que parte do mesmo ensaio mas aplica um corte para chegar perto da vida real. A diferença entre eles não é detalhe: no caso do Audi A6 Sportback e-tron, com bateria de 100 kWh, são 700 km anunciados no ciclo WLTP contra 445 km certificados pelo Inmetro. Cerca de 255 km de distância, ou 36% a menos.
Esse abismo não é exclusividade da Audi. Ele aparece em quase todo modelo importado, porque o número de marketing costuma vir do padrão europeu ou chinês, mais generoso. Quando a montadora cita o valor do Inmetro, ela está sendo honesta com a régua brasileira. Quando cita o WLTP, está vendendo o teto teórico.
A regra dos 70% do Inmetro
O Inmetro não inventa o número do nada. Ele pega o resultado do ensaio de laboratório, base WLTP ou EPA, e multiplica por 0,7. É um fator fixo de correção de 30%, pensado para aproximar o resultado do uso real: trânsito parado, ar-condicionado, subidas e o seu pé. Saber esse 0,7 muda a forma como você lê qualquer folheto.
O cálculo é direto. Se um carro atinge 300 km no teste do PBEV, a autonomia oficial declarada cai para 210 km, porque 300 vezes 0,7 dá 210. Se ele faz 286 km no ciclo de cidade, o número oficial fica perto de 200 km. Decore o gesto: viu o valor do laboratório, multiplique por 0,7 e você terá uma estimativa do que o Inmetro certificaria.
Audi A6 Sportback e-tron
É o caso que melhor mostra a distância entre o folheto e o certificado. A Audi anuncia até 700 km no ciclo WLTP, apoiada na bateria de 100 kWh e em um dos carros mais aerodinâmicos que a marca já fez. O Inmetro certifica 445 km para o Brasil. A conta da régua dos 70% bate quase de cravo: 700 vezes 0,7 daria 490, e o número real ainda fica um pouco abaixo disso por causa do nosso uso. Valores estimados, fonte CNN Brasil e PBE Veicular 2026.
WLTP, EPA, CLTC: de onde vem o exagero
Os nomes parecem burocracia, mas mudam o tamanho da promessa. WLTP é o ciclo europeu, EPA é o norte-americano e CLTC é o chinês. O CLTC é o mais otimista dos três, o que importa porque boa parte dos elétricos vendidos aqui é chinesa. Quando uma marca cita o CLTC, o número infla ainda mais do que o WLTP.
A regra prática para o consumidor é a mesma do Inmetro. A autonomia do PBEV fica, em média, 30% abaixo do número WLTP, e mais ainda abaixo do CLTC. Então, para estimar o que vai certificar no Brasil a partir do valor europeu, multiplique o WLTP por 0,7. Para um número chinês, desconte um pouco mais e desconfie.
Calor e frio comem o resto
Mesmo o número do Inmetro, que já é conservador, ainda balança na rua. O clima é o fator que mais pesa, e o Brasil tem o lado quente do problema. Um estudo da Recurrent Auto com 7.500 elétricos nos Estados Unidos, citado pela CNN Brasil, mostra que entre 35°C e 38°C os modelos ficam de 15% a 31% menos eficientes. Até 32°C a perda é pequena, de 2% a 5%. Some o ar-condicionado ligado em janeiro e você entende por que o painel cai mais rápido do que a planilha previa.
O frio também cobra o seu pedaço, e quem mora no Sul precisa contar com isso. Perto de 0°C a perda costuma ficar entre 10% e 20%. A AAA, nos Estados Unidos, mediu queda média de cerca de 39% no alcance a 6,7°C negativos com o aquecimento ligado. São estimativas que variam por modelo e estilo de uso, mas o recado é constante: temperatura extrema, para os dois lados, derruba autonomia.
Quem lidera e quem mais vende
No topo da autonomia certificada em 2026, o BMW iX xDrive50 aparece com 498 km pelo Inmetro, contra 528 km que a própria BMW anuncia. Logo atrás vem o Chevrolet Blazer EV, com bateria de 102 kWh, certificado em 481 km. São os números de cima da tabela, com o detalhe de sempre: até o líder anuncia 30 km a mais do que entrega no certificado. Valores estimados, fonte mecanicaonline.com.br.
Quem manda nas vendas, porém, joga em outra faixa. O BYD Dolphin Mini, o elétrico mais vendido do país, declara 280 km pelo Inmetro com uma bateria LFP de 38 kWh. A própria BYD destaca que esse valor foi medido pelos padrões mais rigorosos do Inmetro, o que é raro e honesto. No primeiro trimestre de 2026 ele somou 14.757 unidades, e cinco dos dez elétricos mais vendidos eram BYD. Em março o Brasil bateu recorde de eletrificados, e a frota real anda muito mais com 280 km de autonomia honesta do que com 700 km de folheto.
Como estimar a sua autonomia
Junte as peças e você tem um método simples. Comece pelo número do Inmetro, não pelo do folheto, porque ele já vem com o desconto de 30% embutido. Depois, tire mais uma fatia para o seu clima e o seu uso. No calor forte com ar-condicionado, conte com 15% a 31% a menos. No frio do Sul, com 10% a 20% a menos. Estrada em velocidade alta também derruba, porque o vento cobra caro no elétrico.
Vale lembrar o contexto de custo, já que o elétrico ainda tem ticket alto e muita gente financia. A Selic está em 14,25% ao ano, depois de o Copom cortar 0,25 ponto em 17 de junho de 2026, vindo de 15% em fevereiro e 14,5% em abril. Do lado da economia no rodar, a gasolina comum gira em torno de R$ 6,30 por litro na média nacional da ANP, valor que varia por estado e semana, e que desde agosto de 2025 é E30, com 30% de etanol anidro. O elétrico economiza por km, mas a conta só fecha se a autonomia real, e não a anunciada, couber na sua rotina.
Pegue o valor de marketing e multiplique por 0,7: é o desconto que o Inmetro já aplica para virar autonomia oficial, e que aproxima o folheto do uso real brasileiro. Se a marca só divulga o WLTP ou o CLTC, faça você mesmo essa conta antes de acreditar. Depois, tire mais uma fatia para o seu clima: 15% a 31% no calor de 35 a 38°C com ar-condicionado, 10% a 20% no frio perto de 0°C. Para a sua estimativa final, parta sempre do número do Inmetro/PBEV, não do anunciado, e desconte o seu uso por cima. Quem promete 700 km roda 445 no certificado e menos ainda em janeiro. Os quilômetros e os reais que cito aqui não são promessas, são pontos de partida tirados do Inmetro e dos estudos que linkei; o seu número real só fecha depois que você desconta o seu clima e o seu pé.
Perguntas frequentes
Porque o número anunciado vem de um ensaio de laboratório, base WLTP ou EPA, feito sem o calor, as subidas e o trânsito reais. O Inmetro multiplica esse resultado por 0,7, um fator fixo de correção de 30%, para aproximar o valor do uso brasileiro. Por isso o certificado do PBE Veicular é mais baixo e mais confiável que o folheto.
Parta do número do Inmetro/PBEV, não do anunciado, porque ele já tem o desconto de 30% embutido. Se a marca só divulga o WLTP, multiplique esse valor por 0,7 para chegar perto do certificado. Depois tire mais uma fatia para o seu clima e uso: 15% a 31% no calor forte com ar-condicionado, 10% a 20% no frio perto de 0°C. São estimativas que variam por modelo.
Pelo ciclo Inmetro, o BMW iX xDrive50 lidera com 498 km, enquanto a própria BMW anuncia 528 km. O Chevrolet Blazer EV, com bateria de 102 kWh, vem com 481 km certificados. Mesmo no topo da tabela, o número anunciado fica acima do certificado. Valores estimados, fonte mecanicaonline.com.br e PBE Veicular 2026.
Reduz, e é o fator que mais pesa por aqui. Um estudo da Recurrent Auto com 7.500 elétricos, citado pela CNN Brasil, mostra que entre 35°C e 38°C os modelos ficam de 15% a 31% menos eficientes. Até 32°C a perda fica pequena, de 2% a 5%. Com o ar-condicionado ligado em pleno verão, espere o painel cair mais rápido que a planilha.