Deixa eu começar pelo número que decide quase tudo e que ninguém grita no anúncio: rodar 100 km custa cerca de R$ 13,50 carregando em casa, contra os R$ 30 a R$ 55 que o mesmo trajeto pediria de gasolina a R$ 6,29/litro. Essa diferença por quilômetro é o coração da decisão, e é uma estimativa, não promessa de fabricante. O problema é que esse R$ 13,50 só existe sob condições bem específicas: tomada em casa, tarifa residencial e rotina previsível. Tire qualquer uma dessas pernas e a conta encolhe ou some. Este guia separa o número bonito do número que você vai viver.
Os dois números que importam
Toda a discussão de elétrico no Brasil em 2026 cabe em duas linhas. Linha um: o preço de compra, hoje pressionado por um imposto de importação que vai subir. Linha dois: o custo de rodar, que é onde o elétrico ganha quando você carrega em casa. O elétrico pede mais na entrada e cobra menos no uso, então a pergunta nunca é se compensa em abstrato, é em quantos quilômetros e sob qual tarifa o desconto do dia a dia cobre o sobrepreço da compra.
Os números de uso vêm de levantamentos de mercado e de tarifas médias, não de uma tabela cravada. A referência citada é de consumo em torno de 17 kWh por 100 km e tarifa residencial entre R$ 0,79 e R$ 0,95/kWh, o que coloca os 100 km perto de R$ 13,50. Trate isso como ordem de grandeza estimada: muda com a tarifa do seu estado, com o seu carro e com o seu pé direito. A ANEEL ainda projeta alta média de cerca de 8% nas tarifas residenciais em 2026, então o número tende a subir um pouco ao longo do ano.
O imposto de 35% muda o preço
Marque a data: a partir de julho de 2026 o imposto de importação para elétricos a bateria sobe para 35%, encerrando o cronograma de reoneração gradual. Até esse marco, o BEV importado pagava 25% (alíquota vigente desde julho de 2025), o plug-in 28% e o híbrido convencional 30%. Em julho tudo converge para 35%, valendo para todos os tipos de eletrificados importados. Quem comprou antes pegou a janela barata; quem comprar depois entra no novo patamar.
O que isso faz com o preço final é estimativa, não tabela oficial: projeta-se aumento de R$ 15 mil a R$ 30 mil para os elétricos de entrada importados. Não tome esse intervalo como preço de etiqueta, porque parte do tributo pode ser absorvida, parcelada em reajustes ou compensada por promoção. Mas a direção é clara, e ela inverte o sentido da pressa: para o elétrico importado, esperar o ano virar não barateia, encarece. Isso pesa contra o discurso de que dá para deixar para depois.
Onde você recarrega muda tudo
O R$ 13,50 por 100 km nasce e morre na tomada de casa. A tarifa residencial citada fica entre R$ 0,79 e R$ 0,95/kWh, e carregar 50 kWh sai por cerca de R$ 47,50. A recarga pública é outra realidade: a referência média citada é de R$ 2,30/kWh, quase três vezes a tarifa de casa. Quem depende de eletroposto paga, por quilômetro, algo bem mais próximo da gasolina, e às vezes acima dela. A economia do elétrico não está no carro, está na sua garagem.
- Tem tomada em casa e tarifa residencial: ~R$ 13,50 por 100 km contra R$ 30 a R$ 55 de gasolina (estimativa)
- Rotina diária previsível, como ir e voltar do trabalho, que cabe na recarga noturna
- Mora em estado que isenta ou reduz o IPVA do elétrico, como RS, DF, MA, TO ou RJ a 0,5%
- Roda muito por mês: quanto mais km, mais rápido o desconto por km cobre o preço de compra
- Não tem onde carregar em casa e depende do público a ~R$ 2,30/kWh: a economia por km quase evapora
- Comprar BEV importado a partir de julho de 2026, já dentro dos 35% de imposto
- Roda pouco por mês: o sobrepreço de compra demora muito para voltar pelo combustível
- Mora em SP, onde o BEV paga 4% de IPVA sobre o valor venal, sem isenção
O mercado já decidiu por você?
Quem olha só o volume de vendas pode achar que a discussão acabou. O Brasil fechou 2025 com 223.912 eletrificados emplacados, recorde anual e alta de 26% sobre 2024. Desses, 80.178 eram 100% elétricos, 36% do total e um crescimento de 30% no ano. Em 2026 o ritmo acelerou: no primeiro trimestre foram cerca de 94.700 eletrificados, alta de 89,23% sobre o mesmo período de 2025, e só em maio foram 51.213, sendo 20.878 BEV. Naquele mês os eletrificados foram 23,89% do mercado e os 100% elétricos, 9,74%, com BEV crescendo cerca de 200% sobre maio de 2025.
Curva subindo não é o mesmo que conta fechando para o seu caso. Quase 1 em cada 10 carros novos em maio foi um BEV, mas esse número agrega quem tem garagem com tomada, quem roda muito e quem comprou na janela de imposto barato. Volume de mercado mede adoção, não economia individual. A estatística serve para mostrar que a infraestrutura e a oferta estão crescendo a ponto de tornar o elétrico viável para mais gente, e não para garantir que ele compensa para você.
Um BEV de referência na conta
Para sair do abstrato, uso um elétrico que aparece direto nessas buscas. A Tabela Fipe do BYD Dolphin ano 2026 indica valores aproximados entre R$ 132.055 e R$ 150.554, com anúncios de mercado indo de cerca de R$ 137 mil a R$ 170 mil. São valores de referência, variam por versão e por mês, não é preço fixo de venda. No quesito segurança, o BYD Dolphin Plus na versão de 7 airbags foi o primeiro carro 100% elétrico e o primeiro de fabricante chinês a tirar 5 estrelas no Latin NCAP, com 92,60% para ocupante adulto e 93,17% para ocupante infantil.
BYD Dolphin (ano 2026)
Uso ele como referência de preço e segurança, não como recomendação única. A Fipe 2026 aponta faixa estimada de R$ 132 mil a R$ 150 mil, e a versão Dolphin Plus de 7 airbags tem 5 estrelas no Latin NCAP. O imposto de 35% a partir de julho pressiona o preço de quem comprar depois.
Coloque os números na mesma balança. Um BEV nessa faixa custa bem mais que um hatch ou sedan a combustão equivalente na compra, e é justamente esse delta de entrada que a economia por quilômetro precisa cobrir ao longo dos anos. Se você carrega em casa e roda muito, o R$ 13,50 por 100 km vai abatendo esse sobrepreço mês a mês. Se você roda pouco ou depende da recarga pública a R$ 2,30/kWh, a matemática trava e o carro a combustão volta a fazer sentido financeiro.
IPVA: o desconto depende do CEP
O imposto anual também entra na conta e ele não é nacional. Em São Paulo não há isenção para BEV: o carro paga 4% sobre o valor venal, e a isenção fica restrita a hidrogênio e híbridos flex. Já Rio Grande do Sul, Distrito Federal, Maranhão e Tocantins concedem isenção total a elétricos. O Rio de Janeiro aplica 0,5% para BEV e 1,5% para híbridos, e o Mato Grosso do Sul isenta no primeiro ano e dá 70% de desconto a partir do segundo. Antes de calcular o break-even, descubra o que o seu estado cobra, porque um BEV de R$ 140 mil a 4% de IPVA paga uma conta anual que zera em outros estados.
Por que a etiqueta não diz km/l
Se você foi ver a etiqueta do Inmetro e estranhou não achar km/l, é por desenho. Desde 2023, no PBE Veicular, a autonomia dos elétricos é apresentada em distância percorrida (km) e o consumo energético oficial é medido em MJ/km, seguindo metodologia SAE/EPA pela Portaria 169/2023, sem conversão para km/l. A tabela atualizada, versão 2025, catalogou 895 modelos e versões, dos quais 174 elétricos. Para a sua conta, o que importa é o consumo em kWh por 100 km do modelo específico, porque é ele que multiplica pela tarifa e devolve o custo por quilômetro. Eu confio mais nesse dado oficial do que na autonomia de catálogo, que costuma ser otimista no uso real.
Resolvo isso na régua de custo por quilômetro. Carregando em casa, rodar 100 km custa cerca de R$ 13,50 (consumo de ~17 kWh e tarifa de R$ 0,79 a 0,95/kWh), contra os R$ 30 a R$ 55 que a gasolina a R$ 6,29/L cobraria nos mesmos 100 km. Tudo isso é estimativa, não tabela. O elétrico compensa para um perfil claro: quem tem tomada em casa, roda muito por mês numa rota diária previsível e mora em estado que isenta ou reduz o IPVA, como RS, DF, MA, TO ou RJ a 0,5%. Para esse motorista, o desconto por km abate o preço de compra ao longo dos anos. Sendo honesto sobre quando não compensa: se você não tem onde carregar em casa e depende do eletroposto a ~R$ 2,30/kWh, a economia por km quase desaparece; se roda pouco, o sobrepreço de compra demora demais para voltar; e se mora em SP, os 4% de IPVA e o imposto de importação de 35% a partir de julho de 2026 empurram a conta para longe. Nesses casos, um carro a combustão ainda sai na frente no bolso.
Perguntas frequentes
Carregando em casa, a estimativa é de cerca de R$ 13,50 por 100 km, considerando consumo de ~17 kWh e tarifa residencial entre R$ 0,79 e R$ 0,95/kWh. A gasolina a R$ 6,29/L cobraria algo entre R$ 30 e R$ 55 nos mesmos 100 km. São valores estimados e mudam com a tarifa do seu estado e com o carro. A recarga pública, a uma referência de R$ 2,30/kWh, deixa esse custo bem mais alto.
Sim, para os importados. A partir de julho de 2026 o imposto de importação de elétricos a bateria sobe para 35%, encerrando a reoneração gradual; antes o BEV pagava 25% (desde julho de 2025), o plug-in 28% e o híbrido 30%, e tudo converge para 35%. A estimativa de impacto é de aumento de R$ 15 mil a R$ 30 mil para os elétricos de entrada importados, valor projetado e não preço oficial de tabela.
Na conta de custo por km, não costuma fechar. O elétrico ganha quando você carrega em casa a R$ 0,79 a 0,95/kWh. Dependendo de recarga pública, com referência média citada de R$ 2,30/kWh, o custo por quilômetro sobe muito e fica perto, ou até acima, da gasolina. Sem garagem com tomada, a principal vantagem econômica do elétrico desaparece e o sobrepreço de compra fica difícil de recuperar.
Não, depende do estado. Rio Grande do Sul, Distrito Federal, Maranhão e Tocantins isentam totalmente os elétricos. O Rio de Janeiro cobra 0,5% para BEV e 1,5% para híbridos, e o Mato Grosso do Sul isenta no primeiro ano com 70% de desconto depois. São Paulo não isenta BEV: paga 4% sobre o valor venal. Antes do break-even, confira o que o seu estado cobra, porque isso muda a conta anual.
Por metodologia. Desde 2023, no PBE Veicular, a autonomia dos elétricos é informada em distância percorrida (km) e o consumo é medido em MJ/km, pela metodologia SAE/EPA da Portaria 169/2023, sem converter para km/l. A tabela versão 2025 catalogou 895 modelos e versões, sendo 174 elétricos. Para a sua conta, o dado útil é o consumo em kWh por 100 km, que multiplicado pela tarifa devolve o custo por quilômetro.